REVISTA DIA-A-DIA DO JORNAL DIÁRIO DO GRANDE ABC, DESTACA O CENTRO DE TRATAMENTO BEZERRA DE MENEZES.

O policial militar Richard e o engenheiro químico Sergio (nomes fictícios) estão internados há 20 dias no CENTRO DE TRATAMENTO BEZERRA DE MENEZES, em São Bernardo do Campo, após pico de estresse seguido de surto místico, Richard restabeleceu o equilíbrio pintando porta-retratos e costurando. “Trabalhava muito com droga, favela, trocava tiros. Fiquei muito brutalizado. Os médicos dizem que entrei em delírio místico: apeguei-me a Deus, entrei na igreja e não queria mais sair de lá. Quando me trouxeram para cá, recuperei o equilíbrio através da arte. Ela aflorou o meu retorno à vida. Comecei a costurar, fiz uma bolsa para minha esposa e me redescobri em coisas pequenas que eu nunca mais tive que fazer. Também passei a dizer coisas que antes eu não falava à minha mulher e à minha mãe, como eu te amo”, conta o policial que surpreendeu o filho, de 9 anos, na primeira visita ao hospital. “Ele viu que eu estava mudado e disse: “Pai você está mais bonito”. Quando sair daqui quero comprar um fogão novo pra fazer cookies com ele. Deixar ele por a mão na massa, que é muito gostoso”, disse enquanto tirava do bolso a receita do biscoito.

Sérgio, por sua vez, encontrou na pintura cerâmica o alento para as freqüentes crises de transtorno bipolar. “Eu me vi enxergando o mundo quando pintei uma caneca, porque eu fazia cerâmica quando tinha 14 anos. Você percebe que esta ficando melhor quando começa a praticar arte. A mente é muito voltada para coisas ruins e, quando começa a se concentrar na arte, você resgata aquela sensação boa, de quando era criança”.

A arte também fez com que Richard e Sérgio se tornassem amigos. “A gente brinca que ele é o Victor Valentim e eu sou o Jack Le Clair, por que ele costura e eu faço pintura. Então, a gente fica tirando sarro um do outro. Diria que o melhor caminho para a cura é quando você começa a dar risada de si mesmo, porque é sinal de que a vida voltou a ter graça, deixou de ser cinza e passou a ser colorida”, concluiu Sérgio.

Para a terapeuta ocupacional da Instituição, Carolina Nazatto Zambon, ressalta que as atividades proposta – coral, jardinagem, marcenaria e rádio – não são mera ocupação, mas um fazer artístico que envolve consciente e inconsciente, externo e interno, fazendo com que a pessoa em sofrimento psíquico se enxergue, se reconheça e consiga reconstruir sua história de vida. “A gente percebe, pela arte deles, o que precisa ser trabalhado e comunica o psicólogo para que haja essa troca, que enriquece muito. Muitas vezes, o paciente tem dificuldade em falar o que está sentindo, porque é algo que ainda machuca muito. E quando, dá plasticidade para esse sentimento, consegue olhar para ele de outra forma, mais tranqüila, menos dolorida”.